VI – “Aveiro ”
O sol já se escondera quando Leonor chegara a Aveiro, e esta mais do que nunca sentia-se sozinha e com remorsos uma vez que nunca tinha estado frente a frente com Pedro o que a fazia sentir que agora ele iria ser um perfeito estranho. Cansada da viagem Leonor procura uma estalagem para passar a noite e só no dia seguinte iria procurar Pedro. A noite passou calmamente mas de madrugada ouviam-se as primeiras gotas de água a bater nos vidros das janelas. A manhã chegou e Leonor já estava pronta a começar a procurar o seu amado. Consigo levava um pequeno papel com a morada que este lhe enviara e um pequeno guarda-chuva que pertencia ao seu pai. Com o passar do tempo a chuva era cada vez mais forte o que dificultou a procura de Leonor. Quando se sentia cansada de não encontrar o seu amado Leonor começou a perguntar a todas as pessoas que passavam e em locais comerciais onde se situava a rua que vinha mencionada naquele pedaço de papel. Ninguém conhecia, nem uma única pista. Já passavam vinte e quatro horas desde que Leonor chegara a Aveiro e esta já se encontrava de novo na estalagem onde passou a primeira noite. Pegou no seu novo computador que tinha comprado recentemente e foi ver se Pedro estava online. Parece que a sorte não se esvanecera por completo do seu dia e foi num grande impulso que ela o encontrou online e rapidamente lhe perguntou numa chamada por Web:
- Procurei-te o dia todo e não existe nenhuma morada igual à que me enviaste!
- É impossível! Eu moro na rua de Santa Teresinha, no nº134. – disse Pedro.
- Desculpa mas não foi isso que envias-te.
- Não? Então desculpa deve-mo ter enganado. Desculpa, amanhã anda ter comigo então.
A conversa acabou ali mesmo e no dia seguinte Leonor voltou a pisar as ruas da cidade com um novo pedaço de papel na mão juntamente com um guarda-chuva. Mais uma vez não encontrou a morada indicada e voltou a contar com a ajuda das pessoas que entre ela passavam. Nada, de novo nem uma única pista. Leonor entrou em desespero, sentiu-se humilhada e gozada. A raiva tomou conta de si e desatou a chorar por entre a multidão que passava. A água da chuva escorria-lhe por todo o corpo, uma vez que perdera as forças e não conseguia sequer segurar o seu guarda-chuva. Leonor entrou dentro de um dos barcos que se encontravam ali na berma da ria, e inundada pelas suas lágrimas e pela chuva ali permaneceu. A escuridão era imensa quando Leonor acordara da sua mágoa e ouvia um grupo de pessoas, provavelmente homens a aproximar-se. Espreitou por uma fenda do barco e tentou fugir dos bandidos que se aproximavam mas estes foram bem mais rápidos e agarraram-na por um braço e puxaram-na para um beco. Tentaram roubar-lhe tudo o que ela tinha de valor mas pouco encontraram. Ela gritava mas ninguém parecia ouvir uma única palavra. Quando todos se preparavam para o pior um homem aproximou-se e eles ficaram imóveis por uns segundos até que desataram a correr abandonando Leonor naquele chão já quase despida. O homem aproximou-se mais dela, cobriu-a com o seu casaco e perguntou-lhe onde morava.
- Naquela estalagem perto do centro comercial. – sussurrou Leonor.
- Já sei onde isso fica. – respondeu o individuo.
Ele pegou-lhe ao colo e levou-a até à estalagem onde ela permaneceu a noite a descansar.
O sol já despertara à muito tempo quando Leonor se levantou e pensava se tudo o que lhe acontecera foi um sonho. Mas o que não faltavam naquele quarto eram indícios da noite passada.
Quando conseguiu interiorizar o que se passara Leonor pensou que fora gozada por um indivíduo pelo qual ela se tinha apaixonado. Faltou ao respeito à família, fugiu de casa e agora tudo com que sonhava parecia não existir. Os dias foram passando e Fevereiro chegou, porém nunca mais Leonor encontrou Pedro online. Já com menos de metade do dinheiro Leonor não sabe o que fazer. Voltar para casa estava fora de questão, ligar a Carolina estava fora de questão pois esta nunca concordou com o que ela fazia e então lembrou-se que alguém era capaz de a poder ajudar. Pegou no telemóvel e ligou a Soraia, mas esta não atendeu a chamada e Leonor decidiu tentar mais uma vez. Sem resposta por parte da amiga ela sente-se cada vez mais abandonada. Conseguiu a ajuda da dona da estalagem que lhe diminuiu a renda uma vez que ela estava a ficar sem dinheiro mas não parecia fazer a diferença. O mês de Fevereiro esta já a meio e Leonor só já tinha dinheiro para uma viagem de regresso a casa e pouco mais. Decidiu voltar para junto dos pais mas sabia que não iria ser recebida da melhor maneira e então começou a fazer as malas e ao meio dia do dia 14 partiu para a sua terra natal. As estrelas eram o padrão quando ela chegou a Mansores saiu do autocarro e dirigiu-se a casa dos seus pais. Notava que por onde passava todos lhe olhavam de lado mas fingiu não ver ninguém continuando o seu percurso.
Não tardou a chegar a casa dos seus pais, que davam sinais de estar a fazer uma grande festa com toda a família. Ela não compreendera o motivo mas depois lembrou-se de algo. Era o dia de anos de casado dos seus pais, as bodas de prata. Depois de ficar petrificada a olhar para casa e a lançar arrependimentos Leonor afastou-se e foi a casa de Carolina. Ao chegar a casa da amiga esta toca à campainha e é surpreendida pela mãe da amiga que abre a porta.
- Tu? Que fazes aqui? – perguntou ela a Leonor.
- Desculpe, mas preciso de falar com a sua filha. – respondeu Leonor. – Se fosse possível, claro.
- Não devia deixar, o que fizeste com os teus pais foi muito cruel. E para que saibas toda a gente aqui na freguesia está desiludida contigo! A tua família não merece o que fizeste, foste egoísta e cruel!
- Eu sei, e estou muito arrependida, agora se não se importa chame a Carolina se faz favor.
- Carolina? Podes chegar aqui?
- Já vou mãe.
Ela desceu as escadas a correr mas ficou paralisada ao ver Leonor no meio da sala. A sua face ficou pálida, mas logo reagiu:
- Leonor…que fazes aqui?
- Desculpa, podemos falar a sós?
- Vamos para o meu quarto. – disse Carolina.
Depois de Leonor ter contado tudo o que fizera, Carolina falou pela primeira vez depois de ouvir aquele discurso.
- Desculpa, mas não posso ajudar-te. O que tu fizeste foi muito grave! Acho que já tens idade de tentar ser alguém e de deixar de ser a menina mimadinha que sempre foste. Desculpa mas tens que aprender com os teus próprios erros. – Carolina parecia ter perdido a voz, mas acrescentou: - Sai de minha casa se faz favor.
Leonor ainda tentou falar mas viu que não valeria a pena e saiu sem saber o que fazer. Sem dinheiro, sem amigos sem um único ponto de luz ela vagueou pelas ruas e passou a noite num pequeno palheiro ali perto que estava abandonado.
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